1. Carlos estava no seu quarto, no seu silêncio diário, onde tinha decido ficar. Queria o silêncio, longe de qualquer barulho. Ao início até o sino, quando tocava, incomodava-lhe. Almoçava e jantava em silêncio, quando alguém lhe entregava a bandeja. Ficava na cama até tarde e ia para a cama antes do pôr-do-sol. Durante o dia, quando lhe apetecia, abria um ou outro livro que alguém tinha emprestado, para ajudar a passar melhor o seu tempo. Agora, passado meses, Carlos decidiu sair. Voltar outra vez para o barulho que o importunava. Voltar outra vez para as multidões que o atropelavam. Voltar outra vez para a inundação de notícias e trabalho que acompanhavam a sua vida. Chega de descanso! Que volte o stress! Poderia voltar à solidão quando sentisse, de novo, a necessidade. 2. Joana tinha três anos e tinha já uma colecção de carrinhos de brincar. Os pais, porque queriam ter um menino e porque não queriam que a feminilidade e a sexualidade minoritária se apoderasse dela, ofereciam-lhe carrinhos de brincar, em vez de bonecas, como se oferecem a todas as meninas da sua idade. Quando Joana entrou para a escola infantil, ela era a menina-rapaz da escola e jogava à bola e aos carrinhos com os rapazes e nunca jogava às bonecas com as meninas, o que as deixavam confusas e a pensar o porquê daquela situação. Foi estranho, e ao mesmo tempo interessante, a disposição que os pais viram em Joana, numa noite depois do jantar. Viram Joana com o seu carrinho preferido a dar-lhe festinhas e a fazer carinhos e dar-lhe beijinhos e a chamar-lhe «meu querido!». 3. - Senhor Armindo, você está sempre contente. Eu, só de pensar no que me aconteceu no ontem passado, não consigo ficar contente. Pelo contrário, a vida foi difícil demais para mim para poder ficar tão contente como o senhor Armindo. - Pois é, senhor Armindo. Todos os dias vejo-o contente. Eu, só de pensar no que o futuro me reserva, não consigo ficar contente. Pelo contrário, o mistério que é o amanhã deixa-me nervoso e só consigo pensar que vai ser muito pior o futuro do que foi o passado e não consigo estar tão contente como o senhor Armindo. - Ora meus senhores. Isso é porque estão demasiado apoderados ao ontem e ao amanhã. O ontem é passado, é história e não pode voltar atrás, já está feito, está arrumado. O amanhã é futuro e por isso é mistério e o que tiver de acontecer, acontecerá. Façam como eu. Eu só vivo para o dia de hoje, pois o hoje é uma dádiva. O dia de hoje chama-se presente, pois é um presente que a vida nos oferece. 4. Estava no terceiro lugar da fila do balcão na farmácia. Passavam já vinte minutos desde que entrei e a fila manteve-se inalterável. Tudo por causa de um senhor idoso que queria levar uns medicamentos para a sua mulher acamada, mas não tinha o dinheiro suficiente e o farmacêutico não queria fiar. O pior é que o homem não se decidia, queria levar os medicamentos que necessitava e só faltavam dois euros e cinquenta cêntimos para o resto do pagamento. Por fim, decidi-me emprestar-lhe o dinheiro que faltava. Como só tinha três euros, emprestei-lhe o que o idoso queria e fiquei apenas com cinquenta cêntimos. Não podia comprar o queria na farmácia, mas como também não era importante decidi deixar a compra para amanhã. Quando saí da farmácia fui gastar a minha última moeda numa raspadinha na livraria ao lado. Ganhei cinquenta euros. |
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sexta-feira, 15 de julho de 2011
“Não chore pelas coisas terem terminado, sorria por elas terem existido” (L. E. Boudakian)
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